quarta-feira, 20 de junho de 2012

A Filha da Minha Mãe e Eu – Maria Fernanda Guerreiro


Mais um que levei pela capa, depois de passar pela livraria, olhar, não levar, passear de novo, olhar, não levar...

Mariana descobre que está grávida e, assim que vê as listas azuis no teste de gravidez, seu primeiro pensamento é sobre a necessidade de ajustar as contas com sua mãe, para que ela própria, possa viver a maternidade tranqüila.

À partir de então, passamos a ver Mariana menina, contando suas primeiras lembranças sobre vivências com sua mãe, Helena.

O relacionamento é conturbado. Helena é uma mulher forte, e Mariana a teme, a admira, não quer magoá-la, quer dar e receber atenção. Mas a mãe é fechada, muitas vezes, rude e parece ressentir-se do relacionamento da filha com o pai, Tito.

Mariana, por sua vez, não entende a raiva que a mãe demonstra quanto ao seu relacionamento com o pai, esse sim, amoroso, atencioso... além disso, a filha sente uma enorme diferença no tratamento dispensado pela mãe à ela, em comparação ao seu irmão, Gustavo. Aos olhos de Mariana, Gustavo sempre foi mais querido pela mãe, suas falhas e erros perdoados, seus pedidos de atenção, atendidos.

O livro vai narrando o crescimento de Mariana, e o desenrolar de sua vida familiar, infância, adolescência e vida adulta, até o fatídico teste de gravidez. Nesse relato, não só surgem os casos de Mariana, mas também acontecimentos entre seus familiares e que, por óbvio, refletem na menina.

Achei o tema interessante, e que tinha muito potencial, podendo ser desenvolvido profundamente. Mas a expectativa inicial logo se desfez, pois achei o livro raso.

Algumas coisas chegam a ser irritantes, de tão didáticas. Quando o livro trata de temas como dependência química, ou aborto, por exemplo, há o relato de Mariana, e logo em seguida, a personagem desanda a explicar pseudo-cientificamente, o que estaria acontecendo. Um exemplo: fulano usava cocaína. Cocaína é uma droga, apresentada como um pó branco, geralmente inalada, etc. (estou exagerando, mas esse é o princípio).

Além disso, em diversas passagens que deveriam ter uma carga dramática maior para a personagem, é narrado superficialmente, achei que faltou densidade. A autora quis falar de vários temas, durante a vida da personagem, e então, em nome da quantidade, deixou um pouco a qualidade de lado.

Mas talvez esteja sendo um pouco rígida, porque trata-se de um livro voltado ao público jovem, e maior profundidade em alguns temas poderia incomodar. Enfim...
Outro ponto que me desagradou um pouco é que, nesse livro, também vi errinhos bobos no português, ou seja, faltou uma revisão mais atenciosa (e olha, juro que não saio procurando erros durante a leitura). Quer exemplo? Bem, me foge o número da página agora mas, numa frase, está escrito “nos braço”. Desnecessário.

Indicaria o livro, com todas essas ressalvas, por um único motivo: durante a leitura, lembrei-me de uma série de acontecimentos, durante a minha vida, entre minha mãe e eu, que eu sequer lembrava que tinham acontecido, brigas bobas, outras nem tanto, e isso me fez pensar em uma outras coisas, que dizem respeito ao nosso relacionamento, ainda mais porque, no meu caso, minha mãe está em tratamento, para se livrar de um câncer (esclarecendo: meu relacionamento com minha mãe é incrivelmente bom, sem problemas e traumas, e até onde posso afirmar, mamãe está bem, seguindo firme e forte).

Serve para dar mais valor à algumas coisas, e a ver que, nem sempre, a outra parte está errada (Mariana acaba, após análise, reconhecendo que muitas de suas atitudes também estavam erradas, e acabavam por repelir a mãe).

Até a próxima!

Update: Encontrei pela net uma crítica semelhante a minha, e que acrescenta um ponto muito relevante: a não adequação do tempo narrativo - primeira pessoa - ao modo como a história foi contada. Uma boa resenha, aqui

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Para Sempre – Kim e Krickitt Carpenter


Li o livro já faz um tempinho, mas resolvi esperar para ver o filme, para comparar.

Honestamente, não precisaria. Já sabia que o filme era só inspirado na história real, mas na verdade, eles têm só o tema em comum, o resto é bem diferente, então, realmente, são duas coisas bem distintas.

A história real, contada no livro, fala sobre Kim e Krickitt Carpenter, americanos que se conheceram depois que Kim, que era treinador de uma equipe de baseball, liga para encomendar agasalhos esportivos a uma empresa. A atendente é Krickitt. É bacana e inusitado a forma como o casal se conheceu, afinal, imagino quão poucas são as chances desse tipo de encontro dar certo. :)

Daí em diante, temos um relato sobre como mantiveram contato (telefonemas e viagens aéreas) até se casarem. Krickitt é muito religiosa, cristã praticante, missionária. Aí, apenas dois meses após o casamento, ao irem passar o dia de ação de graças na casa dos pais dela, sofrem um acidente, onde ela quase morre.

Ao começar a melhorar, percebem que Krickitt não se lembra de ter casado. Nem de Kim. E aí passamos a saber como foi o período de recuperação dela (de como ela ficou chata, parecendo uma criança mimada, ou uma adolescente rebelde), e a percepção de Kim de que sua amável esposa tinha morrido naquele acidente,e dado lugar a outra Krickitt.

Compartilho o sentimento de muita gente que leu o livro (e que leu entrevistas dadas pelo casal). Não foi, aparentemente, o amor que manteve o casal junto, mas muito mais o sentimento de dever religioso, de manutenção dos votos matrimoniais. O que não desmerece a história, por favor. Mas se você espera romance, talvez se decepcione.

Aliás, uma das ressalvas sobre o livro é justamente isso. Não que se espere um romance água-com-açúcar. Mas devemos ter em mente ao ler o livro, de que ele é um relato. Não foi escrito por um escritor, realmente, mas por Kim e Krickitt (mais por Kim, o que deixa algumas passagens meio floreadas demais, um tanto forçadas, pois quando se vê entrevistas de Krickitt, percebe-se que ela sempre diz que nunca mais se lembrou dos momentos de casada, de como foi conhecer o marido, e mais, que não se apaixonou perdidamente por Kim, mais uma vez, mas sim aprendeu a viver com ele).

Ao ler o livro, temos a impressão de ler, na verdade, uma reportagem de jornal ou revista.

E eu não costumo gostar de capas de livro com cenas de filme. Pode ser jogada editorial excelente para alguns, mas para mim, o efeito é contrário. É um tipo de repelente, chego a não comprar o livro, se a capa oferecida é a que foi feita com um cartaz do filme. Mas, nesse caso, não tinha muita escolha, foi assim mesmo (e olha que gosto da Rachel McAdams).

Sobre o filme, como já disse, tirando a premissa acidente-amnésia, esqueça o restante do livro. O nome dos personagens, profissão e desenrolar da história é totalmente outro. A cena inicial do casamento é bem bacana, e serve para fazer algo que foi falho no livro: identificação com o casal. Aquela coisa de ver a fase inicial dos dois e depois ficar torcendo para que eles voltem a dar certo, sabe? (isso porque o casal do filme, com McAdams e Channing Tatum nem é tãaaaao bom assim. Química mesmo foi entre Rachel e Ryan Rosling em Diário de Uma Paixão :P ). Também não é um filme excelente, mas além de mostrar mais o casal junto, o que gera essa identificação, traz um outro antagonista (além da própria amnésia), o ex-noivo, o que dá mais "caldo".

Recomendo os dois, filme e livro, com as ressalvas acima. Assistam, leiam... mas não precisa sair correndo para fazê-lo!
 casal da ficção e da vida real

Se quiser um texto a mais sobre a história (em inglês), clique aqui

Trailler do filme, aqui 

Mais livros com o tema amnésia?  Clique aqui

terça-feira, 12 de junho de 2012

Diário de uma Paixão - Nicholas Sparks


Como hoje é dia dos namorados e, mesmo sabendo que a data é beeem comercial, não há como ficarmos imunes ao bombardeio de imagens nos lembrando do tema, mesmo quem está solteiro e, como no domingo participei (como convidada e cerimonialista) da celebração do casamento de uma prima minha, óbvio que peguei um livro água com açúcar, cheio de romance, para resenhar.

Não chega sequer a ser uma dica, afinal, não são muitas pessoas (homens e mulheres, ta?) que não ouviram falar de Diário de uma Paixão - livro. Ou Diário de uma Paixão – filme. Ou de Nicholas Sparks. Ou de todos eles. 

A história? Bem, para quem não sabe, vamos lá: Um senhor de idade avançada, que mora num asilo, começa a ler algumas anotações, e contar uma história que, segundo ele diz, é verídica. Tempos atrás, um jovem trabalhador, pobre, chamado Noah conhece, durante um verão, Allie, menina rica, aspirante a pintora.

Durante aquele período, os dois se apaixonaram, se envolveram, se conheceram e fizeram planos. Mas, aquele tempo acabou. A família de Allie, tradicional, até que não tinha nada “contra” o rapaz. Mas ele, sendo pobre, não poderia deixar de ser nada além de uma paixonite de férias. Quando percebem que talvez não fosse só isso, impedem o namoro, e vão embora. 

Quatorze anos se passam, muitas histórias e cicatrizes. Noah viveu muitas coisas, enfrentou a guerra. Allie desiste de ser pintora, se torna voluntária (também no período de guerra) e conhece Lon. E se apaixona, verdadeiramente. Lon é tudo o que a família quer para Allie, rico, bem sucedido. E Allie está feliz, preparando o casamento. Até que, num golpe de destino, ela fica sabendo onde Noah está. 

O bacana do livro, em minha opinião, é que ele não tenta esconder o que é. Assume-se como um romance açucarado e pronto. Não gosta? Azar. E é bem legal, ao fim do livro, algumas perguntas que ele lança (um capítulo à parte, com pontos de discussão mesmo). Bem coisa de “clube do livro”, comum nos Estados Unidos (as pessoas combinam um título, lêem e, depois de um tempo, marcam reuniões para conversar sobre o livro/tema).

Segundo o autor, essa história é inspirada na história dos avós de sua esposa.

Li o livro recentemente. Esse é um dos casos em que vi o filme antes de ler o livro. Em uma de minhas férias, junto com um monte de tios e primos, todos na casa de minha avó, chega meu pai da locadora (isso, na época em que a gente ainda tinha esse costume), cheio de filmes, dos mais variados tipos. Entre eles, Diário de uma Paixão. Como já disse por aqui, romance água com açúcar não é mesmo minha área. Fiz careta para o filme (embora gostasse dos atores – Ryan Gosling e Rachel McAdams). Mas, com o sol rachando lá fora, e absolutamente nada para fazer, juntando isso o fato de que a parentada toda estava esparramada entre sofá e chão, também sem ânimo para muita coisa, vi o filme. E devo dar o braço a torcer. Até hoje digo que não gosto de filmes melosos, A NÃO SER Diário de uma Paixão. E tenho uma prima, também presente naquele episódio, que diz exatamente a mesma coisa (acho que esse filme só não derreteu totalmente o coração de minha mãe, essa sim, durona de marca maior).

Para quem até hoje não sabe, o livro e o filme tem finais diferentes.

A crítica que faço sobre o livro gira em torno dos errinhos de português/digitação que encontrei. A revisão deveria ter sido mais cuidadosa.

Acompanhados ou não, livro e filme, são daqueles que fazem você querer que exista esse tipo de amor gigante, que enfrenta um monte de obstáculos e fica firme. E Allie é bastante interessante sim, mas olha, Noah só pode ser imaginado, um personagem mesmo... acho que esse tipo, exatamente assim, não existe (e tendo a cara de Ryan Gosling então, beira o impossível)!

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Pulmões de Aço – Uma Vida no Maior Hospital do Brasil - Eliana Zagui


Sim, sumi, mas por uma justa causa. Trabalhando. Horrores. Inclusive hoje, sexta-feira, pós Corpus Christi. Uma maravilha (só que não).
Mas ontem, sim, descansei, fui ao cinema, dei umas voltinhas no shopping e voltei com alguns livros na sacola, para variar. 

O de hoje, vinha namorando faz algum tempo, mas sempre adiava a compra. Mas, como estava decidida a vencer alguns preconceitos, comprei, finalmente. É uma autobiografia (e já disse aqui que não são meu estilo predileto). E a autora é brasileira.

Não é uma biografia comum. Eliana, com 2 anos de idade, teve poliomelite e, em 1976, foi internada às pressas no Hospital das Clínicas, em São Paulo.

Como sempre estava meio gripadinha, com garganta inflamada, os médicos da época sempre recusaram fazer a vacinação da menina. E naquela época, a pólio não estava erradicada. Pior, haviam surtos da doença. Agravando a situação, durante um bom tempo, os médicos que a atenderam, ao invés de perceber os sintomas da doença avançando, acharam que era mais uma gripe, mais uma infecção na garganta. Quando suspeitaram de pólio, iniciou-se uma corrida a hospitais maiores (ela é do interior). Quase não resistiu. Teve comprometimentos sérios, a paralisia a atingiu do pescoço para baixo. Foi colocada numa máquina conhecida como “pulmão de aço” (daí o nome do livro), para tentar fazer com que seus pulmões verdadeiros se recuperassem. Não deu. Teve que ser submetida a uma traqueotomia. 


A expectativa de vida para quem tem pólio é de dez anos. Ela já tem quase 40 anos morando no Hospital. E de lá, em sua cama, vendo tudo na horizontal (fica deitada praticamente o tempo todo, pois, devido à pólio, os ossos não se desenvolveram, podendo quebrar com um movimento mais brusco), sentiu os sintomas, amor, desilusão... viu os pais se afastarem, em visitas que foram diminuindo, sentiu dor ao se aproximar de uma pessoa que passava a visitar os internos mais frequentemente, mas depois, de repente e sem aviso, sumiam, descobriu que poderia usar a boca para escrever, pintar e ver o mundo pela internet, e também teve que ver seus amigos, também vítimas da pólio, partirem, um a um. Agora, restam ela e Paulo. Os amigos, que cresceram juntos e passavam, literalmente, vinte e quatro dias juntos, estavam indo embora.

Eliane conta que sim, os momentos de depressão ou de revolta foram muitos. Mas ela escolheu viver. E conta sua história, do jeito que lhe é possível: Com a boca.


Obviamente, não é o livro mais feliz do mundo. Muitas vezes, dependendo da passagem que a autora ia contando, bem, não tem como não ficar emocionado. Mas não é um relato depressivo. É um retrato de alguém que decidiu lutar, mesmo com o pouco que tinha. Achei bacana, inspirador. E muito fácil de ler, cheguei em casa ontem a tarde, li todo ele até a noitinha e deixei esse post semi pronto.

Recomendo, pois é um chacoalhão na gente, que as vezes reclama tanto, por tanta bobagem.... Bom feriado para todos vocês!


quarta-feira, 30 de maio de 2012

Hoje eu não vou falar de um livro específico...


Hoje, exceção à regra, vou fazer um pouquinho diferente e não vou falar sobre um livro específico. Vou segurar um tantinho um post que tenho feito para comentar uma coisa que tenho observado. Na verdade, será mais um desabafo, já que dos que acessam o blog, são poucos mesmo os que comentam...

Pelo Blogger, consigo ver as estatísticas do blog, os posts que fazem mais sucesso, que são mais acessados e os que são os que mais bombam (e tomei um susto quando vi que até na Rússia tem gente acessando!).

Pois então, por causa do meu último post, sobre Macunaíma, tive um estalo e comecei a prestar mesmo atenção nas estatísticas. E confirmei minha desconfiança. Os posts que tratam de livros de língua portuguesa (não necessáriamente brasileiros, mas de autores portugueses também, como Saramago) são – sempre – os que possuem menos acessos, alguns, considerados por mim fracassos retumbantes, como, por exemplo, o Macunaíma mesmo.

Claro, não sou ingênua, sei (e disse no post) que é um livro que pode enganar. É meio fantasia, meio comédia, é fininho, mas é sim, complexo. São muitas nuances e críticas, enfim, pode ser considerado um livro difícil.

Mas temas difíceis não me parecem ser, necessariamente, um fator de desencanto sobre um livro. Pois, na contramão, os posts que tiveram mais acessos aqui, geralmente são os que tem uma temática mais forte, como por exemplo, o livro da Jaycee Dugard, onde ela relata o caso de cárcere privado e abusos que sofreu.

Tenho também, claro, que reconhecer que os livros de língua portuguesa que apareceram por aqui (e são poucos, por enquanto) são, em geral, os considerados clássicos, e esses costumam ter uma barreira em torno deles (livro “de vestibular” eca, tô fora). Mas qual seriam os problemas dos clássicos? Como já disse, Ensaio sobre a Cegueira é um dos meus livros prediletos, juntamente, por exemplo, Dom Casmurro, de Machado de Assis. Li os 2 uma infinidade de vezes, assim como li Senhor dos Anéis (só para vocês sentirem que realmente sou eclética).

E mais, o problema é o clássico de língua portuguesa ou qualquer um serve? Será que se fizesse um post sobre a Divina Comédia, ele seria bem quisto pelos leitores, ou haveria também rejeição? Estamos buscando mais literatura, ultimamente, mas queremos uma linguagem mais fácil, mais atual, ou livros menos complexos, ou é apenas obra do acaso?

E finalizando: o post sobre Raphael Draccon e sua (ainda) trilogia Dragões de Éter foi o mais acessado dentre os que estou tratando (língua portuguesa). Talvez justamente por ele ser mais contemporâneo, trazer uma leitura mais fluída, de uma forma mais agradável, talvez, à platéia atual. Mas, mesmo assim, nem se compara a outros livros tratados aqui. Existe uma barreira dos leitores aos nacionais, ou há, na verdade, uma falta de escritores brasileiros/lusófonos que escrevam seguindo as tendências dos leitores atuais?
Ou estou apenas viajando demais?

Não sei... nos outros sites/blogs sobre livros, vejo muitas resenhas de livros estrangeiros (e não é uma crítica, também os leio muito, tanto que são também maioria por aqui). Estão faltando bons autores da nossa língua atualmente? Ou os que existem não fazem “literatura de massa”, sendo incapazes talvez de se tornarem bestsellers?

Aproveitando a deixa: alguém poderia sugerir (por comentários, facebook, email) autores brasileiros bacanas e atuais para que eu possa começar a correr atrás deles? Não existe nenhum romance bacana sobre a nossa realidade, ou sob a perspectiva de pessoas da nossa cultura que alguém recomende? (eu estou pensando em um, mas isso é assunto para um outro post...)

Beijos!

 Essa imagem linda, tirei daqui: Clube de Leitores

terça-feira, 29 de maio de 2012

Macunaíma – O herói sem nenhum caráter – Mário de Andrade



Mas, Aline, é esse livro mesmo que você vai resenhar? Não saiu da fase do pré-vestibular faz tempo?

Sim, faz. Inclusive, devo dizer que esse livro foi sim um dos listados na época (xiiiiii) que eu fui tentar entrar numa faculdade. E, mesmo eu, que leio, leio, leio, que encarei Lusíadas tranquilamente, como um desafio (outro que fazia parte da lista), devo dizer que, ao encarar Macunaíma pela primeira vez... O-D-I-E-I. E, fazendo coro aos meus protestos, uma colega de classe, que sonhava em fazer sociologia, dividiu a mesma opinião que a minha. Era muito absurdo pra um livrinho tão fino...


Mas, a gente cresce, e mesmo eu, me achando toda metidinha e adultinha pra idade, li o livro novamente (e pasmem – pela mesma colega, aspirante à socióloga, que também tinha detestado o livro). E dei o braço a torcer – com força – o livro é muito engraçado, divertido. Talvez eu, com 16 anos, no mau-humor que precedia as provas vestibulares, não estava com a mente suficientemente aberta para apreciar as nuances do livrinho.

Mas devo advertir, mesmo assim, que não é, como pode parecer, uma leitura fácil. Pode parecer, como disse, um livrinho (significando livro pequeno, devo esclarecer) meio de anedotas, de tiradas de sarro, e misturebas folclóricas.

Macunaíma, índio e negro, sai da mata amazônica, de onde nasceu, para explorar o Brasil. E aí se mete em diversas situações inusitadas, pois Mário de Andrade vai misturando diversas histórias, contos, folclores, nas andanças do personagem, que tem, digamos, uma noção toda peculiar de ética e moral.

E toda essa mistura vem com um viés moderno (claro, Mario de Andrade era um dos modernistas) e cheio de críticas implícitas, por exemplo, sobre nossa tendência de copiar culturas estrangeiras, e outros fatos sobre a moral do típico brasileiro. Embora escrito em 1928, continua bastante atual.

E sim, para quem não sabe, existe a versão cinematográfica (que não vi, sim, vergonha mesmo), de 1969, onde Grande Otelo representa o personagem-título.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Fragmentos - Marilyn Monroe


Mal comecei o texto e já estou aqui pensando na dificuldade que vai ser colocar tags nele... Fragmentos não é uma autobiografia, não é romance, não é ficção, não é uma biografia (autorizada ou não). É uma reunião de coisas tão íntimas, escritos, desabafos, cartas, de ninguém mais que Marilyn Monroe.

E mesmo que o leitor não seja um grande fã, devemos reconhecer que é impossível ficar imune à presença de Marilyn. Desde que me entendo por gente (e não sou da época da atriz), sou bombardeada por fotos e imagens dela. Um dos preços de ser alçada a ícone, mesmo antes de morrer. Quem é Marilyn? Saindo da casca de Marilyn, quem era Norma Jean? Para alguns, deusa, para outros, diva, ícone, celebridade. Para outros, uma pessoa perdida e fútil, ou uma alma atormentada. Mas ninguém diz que é uma reles mortal. Esse status básico não foi permitido a ela. Ela poderia ser tudo, mas não poderia ser mortal. E talvez por isso sua morte ainda seja objeto de tanta especulação. Suicídio? Conveniência? 

E o que se sabe sobre ela? Geralmente, o que se vê nos filmes. Aquela imagem de Vênus platinada, inocente - mas nem tanto, sedutora e não muito inteligente. Ou, para os que buscaram a opinião de outros, uma pessoa melancólica, que fazia muitos questionamentos sobre a vida, e que sofreu uma série de traumas durante sua existência.

E então, surge esse livro: Fragmentos. Como disse, difícil de conceituar. Mas abre uma luz sobre Marilyn.

Imaginem que vocês mantêm textos, rabiscos, projetos de poesias, etc., guardados. E que às vezes, esses escritos guardam também todas suas agonias, raivas, frustrações e inseguranças, misturadas com listas de jantares, confissões tolas e análises que você faz sobre o que está ao seu redor e pior- sobre si mesmo.
Isso tudo é o que se encontra em Fragmentos. São textos espalhados de Marilyn, sobre suas reflexões. Imagina o que é abrir o diário de alguém? Imagine então abrir o diário da diva. Com isso, você poderá se surpreender (opa, talvez ela não fosse tão desmiolada quanto pintam), ou se decepcionar (talvez ela seja sim, desmiolada, fora de rumo). Mas poderá saber o que a própria pessoa pensava de si própria, o que temia, e o quanto era frágil.

O bacana é que o livro é lindo, com capa dura, recheado de fotos (não comuns) da diva, e em muitas delas, rodeada de livros (ela se esforçava em tentar melhorar, e devorava livros, como escape, e lia também muitos clássicos, livros tidos como difíceis).

Há várias notas explicativas, que situam o leitor naquele universo. No fim, uma cronologia da vida da atriz, e alguns comentários interessantes sobre sua vida.

E o melhor, a edição traz cópias dos textos, assim como foram escritos (ou seja, com a letra de Marilyn e também seus erros ortográficos, riscos e rabiscos). Na página ao lado, a versão “traduzida”, limpa para o leitor.

Como disse, não é uma história. Mas foi muito interessante ver o quão atormentada poderia ser uma pessoa que, para os olhos de muitos, tinha tudo o que se poderia desejar. Para mim, é agonizante ler alguns trechos onde ela se questiona tão profundamente, sobre tudo. Ver o quão triste e solitária uma pessoa poderia ser, e quão insegura sobre si mesma.

E, claro, é daqueles livros lindos que você pode deixar na sala, de decoração (depois de ler, vai, não seja fútil)! :)


Trechos:
 Após um ano de análise

Socorro, socorro
Socorro.
Sinto que a vida está chegando mais perto
Quando tudo o que quero
É morrer.

Grito-
Você começou e terminou no ar
Mas onde estava o meio?

 ---

Porque é que eu tenho a sensação – de que nada está realmente acontecendo - mas estou interpretado um papel - pelo qual me sinto culpada nele tanto quanto sei o que estou dizendo o que sou e (os) seus efeitos premeditados - exceto
Estou inibida demais para me sentir espontânea porque estou com medo de ser má –
Porque não sei o que vai sair disso - o que vai acontecer
Até gás do meu estômago (com medo de escrever peido)
E serei humilhada e me sentirei menor do que qualquer coisa ou pessoa


quinta-feira, 17 de maio de 2012

As duas vidas de Audrey Rose - Frank de Fellita


Hoje temos mais um daqueles antiguinhos, que roubei dos livros do meu pai :P

Nos anos 70, Bill e Janice tem uma filha, Ivy, de 10 anos, que sofre de ataques epiléticos, com causas ainda não determinadas pelos médicos. Mas, apesar desses percalços, a família é feliz e vive bem. Mas Janice começa a achar que há um homem que está seguindo a família, e principalmente, Ivy.

No começo, suspeita-se que esse homem possa ser um maníaco sexual, um pedófilo. Mas, para a surpresa da família, ele se apresenta formalmente, como Elliot Hoover, um pai de família marcado por uma tragédia terrível: Sua esposa e filha (Audrey Rose) morreram num acidente automobilístico, sendo que a filha teve um fim ainda mais trágico, pois estava trancada e consciente no carro, sentindo o corpo queimar, enquanto o tudo se incendiava.

Bill e Janice são surpreendidos, não só com o surgimento de Elliot, mas com o que ele alega: Audrey Rose teria reencarnado no corpo de Ivy, o que explicaria seus pesadelos e ataques.

Num primeiro momento, o casal repele Elliot, mas após ler o diário que ele escreveu durante uma viagem para a Índia, tentando entender a tragédia que o consumiu, Janice começa, timidamente, a acreditar naquele homem. A família começa a se desarmonizar, mas então, no meio de tudo isso, uma nova crise de Ivy ocorre, e Elliot tenta seqüestrar a menina. O caso vai parar nos tribunais, e Bill está num lado, e Janice, de outro. 

Elliot pode ter razão, ou ainda não superou a tragédia familiar? E como a justiça pode decidir isso? Uma sessão de hipnose, uma regressão, pode ser considerada cientificamente? O fim é pura agonia e chocante.

Frank de Fellita escreveu o livro em 75, e 2 anos após, fez o roteiro para o cinema, que tem Anthony Hopkins como Elliot. Recomendo ambos. É antigo e a história é bacana, mesmo para aqueles que tem crenças diferentes (ou nenhuma crença).

segunda-feira, 14 de maio de 2012

O Colecionador - John Fowles


Frederick Clegg é um funcionário público inglês que coleciona borboletas e sofre de uma quase total incapacidade de se relacionar. Todos os dias ele vê, da janela do trabalho, uma mulher, e começa a nutrir por ela um amor platônico. Investigando um pouco sobre a tal mulher, descobre que ela se chama Miranda. Extremamente bela, é estudante de arte, e tem uma postura que muitos vão considerar irritante, meio metida. E nem sabe da existência do tímido Clegg.

Quando, numa aposta, Clegg se vê milionário, e sua tia e prima, que antes moravam com ele, vão viver na Austrália, ele começa seus planos para mostrar à Miranda seu amor. Assim, não haveria como não perceber que ele é o melhor para ela. Compra uma mansão isolada, com um porão. E então, seqüestra Miranda e a mantém em cárcere privado. A primeira parte do livro é narrada por Clegg.

A segunda parte é narrada por Miranda, que possui um caderno, e anota ali tudo o que acontece com ela. Mentalmente superior à Clegg, observamos suas tentativas de fuga, num primeiro momento, sobrepujadas pela força do oponente e, depois, a tentativa de entender a mente de seu captor, para tentar fugir da prisão. Num primeiro momento, anotações raivosas, depois, ao ter que conviver com aquela pessoa, percebemos que ela também se percebe superior àquele homem, que ele é ignorante e limitado. Mas como desvendar aquele enigma? Miranda então se vê diante de algo que não consegue explicar.

Daí vem a terceira parte, com o clímax, o desfecho da história, e não falarei dela, por óbvio.

Encontrei esse livro (igualzinho à foto aí ao lado) vasculhando livros antigos do meu pai. Isso já faz um bom tempo. E, de tempos e tempos, releio o livro (que não é grande), e percebo que ainda fico bestificada com a narrativa, com uma sensação de agonia que não passa, mesmo já sabendo o fim de cor e salteado.
Não sei de outras reimpressões, mais novas, mas o livro é relativamente fácil de encontrar na internet, ou em bons sebos (o meu do meu pai, tadinho, está decolando todo). E recomendo. Como disse, não só li uma vez, mas um zilhão de vezes, sem cansar.

E, para variar, ao procurar imagem do livro para postar aqui, descobri que há uma adaptação cinematográfica, de 1965. Pronto, já estou maluca para assistir!

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Questões do Coração - Emily Giffin


Primeiramente devo dizer que acho o título do livro meio cafona. E a sinopse não revela muita coisa. Portanto, eu, pessoinha pouco romântica mesmo, JAMAIS teria comprado esse livro a julgar pela sua capa. Como eu sabia o tema, pois um colega havia me dito, e sabia mais ou menos a forma de abordagem da autora, comprei o dito cujo. Mas, novamente, devo dizer: o título jamais agradaria uma pessoa não romântiquinha que passasse por ele.

E a história não é romântica. A autora já escreveu alguns chick lits que, inclusive, viraram livros. E a sinopse pode levar as pessoas a cometer esse terceiro erro de julgamento, mas não. Sejamos claros, o livro trata de traição, de infidelidade.
 
E a parte boa é a seguinte: Quando temos um casal e entra uma terceira pessoa, mulher, a maioria das pessoas pensa o que? Ora, sinceridade aqui. A maioria pensa que a terceira é uma louca, burra, irresponsável, e outros adjetivos bem mais chulos.

Esse é, ao meu ponto de vista, o trunfo do livro. Ele é escrito contanto a história pelo ponto de vista de ambas. As duas mulheres têm direito aos seus próprios capítulos (embora possa ser questionável o fato de existência de isenção, já que a voz da esposa está em primeira pessoa, enquanto a história “da outra” está em terceira).

Vamos ao que interessa: Tessa Russo é uma pessoa bacana, com bons ideais, esforçada, que larga seu noivo de sempre para se casar com um cara que conheceu no metrô: Nick Russo, que é médico, bonitão, inteligente, etc... e um dos melhores médicos que tratam de queimaduras em criança da região. Eles tem dois filhos, tem aquela vida que, à princípio, parece de comercial de margarina: filhos bacanas, carro, casa boa num vizinhança ideal. Tessa decide (sob protestos da mãe) abandonar sua carreira e ser mãe/esposa full time. E se vê num esforço gigante em ser perfeitinha, e entrar nos padrões exigidos pela vizinhança (fazer a comida da família, e que seja orgânica, jogar tênis com as amigas, fazer visitas sociais, decorar a casa no halloween e estar sempre bonita nos eventos).

Valerie é uma advogada formada em Harvard, mãe solteira, batalhadora, bem sucedida na carreira, o filhinho Charlie é uma gracinha, mas ela tem algumas questões pendentes no que diz respeito à superproteção, capacidade de confiar e, depois da desilusão com o pai de Charlie, grandes problemas de relacionamento, que refletem até no seu isolamento com as questões de relacionamento interpessoal com as pessoas de seu dia a dia (e ela é da mesma vizinhança que Tessa).

Eis que um acidente estúpido acontece, e há conseqüências graves: Charlie, ao passar a noite com um coleguinha, acaba gravemente queimado, e aí que os elos se juntam. O médico de Charlie é Nick e esses mundos, tão próximos e tão distantes, vão colidir.

Como disse, o grande trunfo é que não há quem seja certo. Tessa tem grandes virtudes, mas me dá um ódio intenso ver que ela não tem noção que está deixando de ser, por vontade própria, tudo o que o marido admirava, para tentar ser o que as vizinhas (e elas são terríveis, impossíveis de gostar) querem que as pessoas sejam. Ao mesmo tempo, mesmo vendo que está afundando, é incapaz de perceber isso. Mas ela é esforçada, e poxa, o marido nada diz, nem para aprovar, nem para desaprovar.

Valerie já ganha a simpatia da gente pela história de vida, por ter vencido sozinha, apesar de tudo. E a irracionalidade do ocorrido com o filho, e a forma com que as pessoas da vizinhança agem, lidando com o fato, fazem com que a maioria das pessoas, mesmo tendentes a fazer o pré julgamento sobre o qual falamos acima, sejam obrigadas a olhar através dos olhos dela. Obviamente, também somos apresentados aos defeitos dela, à excessiva fragilidade e insegurança que ela abraçou depois do acidente.

E temos Nick, mas embora não tenha lido outros livros da autora, já vi, em comentários de outras pessoas, que seus personagens masculinos não são tão bem definidos, desenhados. Ele é uma incógnita. Temos algumas coisas as quais podemos nos agarrar, para tentar entendê-lo, mas isso geralmente nos é fornecido por impressões de outros personagens.

É um bom livro para refletir, e por na cabeça de alguns que não há, na vida real (embora o livro seja ficção), mocinhos e vilões. Todos acertamos e erramos muito. Todos. E, quem sabe se faríamos igual ou diferente se estivéssemos, nós mesmos, vivendo as situações relatadas?

Minha ressalva está no fim do livro. Obviamente, não vou contar, mas acho que a autora se esforçou tanto em nos deixar em cima do muro (ou pelo menos, incapazes de fazer uma condenação sumária), que o fim foi meio vago. Ela fez tanta força para tentar ser imparcial que o fim ficou um tanto no ar. 

E aí, para você as coisas são assim, certas, preto no branco? Ou há cor ( e muito cinza) entre um extremo e outro?

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Cotoco - John van de Ruit


John Milton (sim, como o escritor famoso) é um menino de 13 anos, que ganhou uma bolsa num respeitado internato, na África do Sul, na época da libertação de Nelson Mandela (1990). A família dele, mãe, pai e avó, é bem maluca, fora do convencional, mas ele percebe que os colegas e professores do colégio podem ser mais loucos ainda. Os apelidos dos colegas já revelam muito sobre a questão: Lagartixa, Cachorro louco, Rambo... para ele, sobrou Cotoco. O motivo? Embora seus amigos tenham idades parecidas, John é o único que ainda não entrou na puberdade, ainda tendo a voz infantil e fina (sendo parte importante do coral, por causa disso) e... seus órgãos genitais ainda não estão desenvolvidos... E o apelido é dado bem rápido, afinal, no internato os banhos são coletivos.

O livro conta o dia a dia de Cotoco, em forma de diário. É bem leve, e muitas vezes você vai se pegar rindo à toa. Não tem nada de jabá, mas devo dizer que o preço sempre me impediu de levar o livro (costumo ler coisas mais sérias, então ele sempre era deixado para trás), mas semana passada, na Livraria Cultura, o danadinho estava em promoção, custando 9,90 dinheiros.

A maior parte do livro tem tom de comédia juvenil, então, novamente, aviso, não espere um livro sério. Talvez por isso, inclusive, que tenha demorado um pouco mais que o normal para terminar de ler Cotoco. Ele não é aquele livro que prende absurdamente, que você acha que não vai conseguir dormir se largar, mesmo que já seja 3 da manhã e você esteja muito cansada. É um diário, de um menino de 13, então, você vai lendo e vendo o passar dos dias de Cotoco, de uma forma mais tranqüila, mais leve (embora, SIM, existam partes tristes).

Só fiquei sabendo ontem, ao pesquisar a capa do livro, que ele tem duas continuações (que eu saiba, não tem no Brasil), e que também há filme baseado no primeiro livro (spud - the movie).

Como estava numa maré de livros mais pesados e/ou densos, foi um tanto difícil pegar no tranco. Acho que estava esperando um pouco mais da história do Mandela, mas aí também, quis demais do livro, assumo. Ele foi bom para aquelas horas que não estava muito bem nessa semana, por uma série de motivos. Ficava meio triste, pegava Cotoco, dava umas risadinhas, melhorava um pouco, ia dormir.

Aliás, por causa de uma série de eventos dessa semana, me peguei pensando numa coisa, e eu sei que é pura divagação, mas enfim... Pessoas que lêem muito. Onde termina esse amor todo por literatura e onde começa a fuga da realidade? Sim, não se enganem, eu amo livros, desde sempre. Mas reparo que, quanto mais triste ou cansada eu esteja, mais eu busco livros, meio que como uma forma de isolamento do mundo real, meio que como uma fuga, para não ter que encarar (e responder) meus próprios pensamentos. Será que os livros estão deixando de ser tanto um amor e se tornando mais uma válvula de escape? Enfim, se acreditar no Blogger, tem até muita gente que me lê, embora não haja muitos comentários, mas, de certa forma, é um desabafo... para uma postagem sobre um livro leve, isso aqui ficou muito para baixo. Desculpem-me por isso!

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Antes de dormir – S.J.Watson


Christine acorda numa cama que não é sua, nua. Ao lado de um homem que não conhece. Ela não sabe como chegou ali. Cuidadosamente, vai ao banheiro, e quando se olha no espelho, fica horrorizada: Não é aquela mulher de vinte e poucos anos que conhece, mas uma senhora, cerca de vinte anos mais velha. Diante da confusão, repara que pregada nas paredes, há uma série de fotos, sem dúvida dela. Fotos que ela não conhece, acompanhada do homem que estava na cama com ela. 

Assustada, recebe a informação daquele homem, que diz se chamar Bem, e ser seu marido: Sofreu um acidente aos 29 anos, e desde então, consegue reter as informações durante o dia, mas ao dormir, esquece de tudo. Todos os dias. E, às vezes, acorda tendo vinte e poucos, outros dias, acorda como uma criança. E se vê envelhecida ao acordar.

Ainda processando as informações que recebeu, sozinha em casa enquanto Bem foi trabalhar, recebe uma ligação de um homem que se diz chamar Dr. Nash. E ele a informa que ela está se tratando com ele, sem que o marido saiba. E que tem um diário, que ela esconde todo o dia, e diz ao Dr. Nash onde o guardou, para que ele, depois conte a ela onde está.

Ao encontrar o diário, conforme as instruções do médico, vê sua letra, seu nome. E abaixo dele, escrito de forma alarmante, também com sua caligrafia, o seguinte aviso: NÃO CONFIE EM BEN.

Nesse momento do livro, somos, juntamente com Christine, apresentado ao seu diário, suas impressões dia a dia. Suas confusões, suas dificuldade, e algumas lembranças, que ainda vem. E começamos a ver que nem toda a verdade está sendo dita a ela. Seria para poupá-la de sofrimento? Para poupar Ben? Quem são as pessoas participam de seu cotidiano? E quando seus flashes de memória indicam que a história que lhe contaram é uma mentira? Em quem acreditar quando nem você mesma sabe quem é? E que esquece o pouco que lembrou quando vai dormir?

Achei o livro claustrofóbico. Em certos momentos, no diário, Christine pensa uma coisa, depois se desdiz, para logo em seguida, reformar novamente o que pensa. E cada vez mais, juntando os retalhos de sua memória, passa a perceber que sua vida pode não ser a que contam. Que o acidente não pode ter sido como lhe foi dito. Até que o diário acaba e somos novamente transportados para o presente. Como Christine agirá com o que acabou de descobrir?

Angustiante, e muito bom. Li num dia só, porque estava agoniada com o fim. E o fim... 

O autor, S.J. Watson é médico, e esse é seu romance de estréia. E mais uma vez, Ridley Scott comprou os direitos do livro, e dizem que Nicole Kidman está cotada a viver a personagem principal. Corre para ler!

Ps: Mais um livro que use a temática amnésia? Clique aqui

terça-feira, 1 de maio de 2012

Box 21 - Anders Roslund e Borge Hellstrom


Lydia, uma jovem prostituta, é encontrada num apartamento gravemente ferida. Ela foi brutalmente espancada, tem um braço quebrado, machucados no rosto, hemorragia interna e as costas retalhadas, provavelmente porque foi chicoteada inúmeras vezes.

Os policiais Ewert Grens e Sven Sundkvist estão indo ao mesmo hospital onde Lydia está, mas para interrogar um traficante de drogas que teve uma overdose. Para Grens é a chance de obter respostas que poderão colocar Lang novamente na cadeia. Tempos atrás, sua companheira policial sofreu um acidente ao tentar prender Lang e acabou com seqüelas físicas e mentais irremediáveis. Mas um evento improvável irá ligar a todos, e com conseqüências inimagináveis.

Box 21, confesso, me pegou pela capa. Estava lacrado, envolto numa faixa preta que avisava que o conteúdo era violento e que o romance havia chocado a Europa. De fato, o conteúdo é sim pesado. Trata de ameaças a testemunhas, dramas antigos, policiais corruptos, dilemas morais e, principalmente, de um tema real, que é a venda de mulheres como escravas sexuais. No caso, de mulheres trazidas dos países bálticos (Lituânia, no caso) para Estocolmo. São seduzidas jovens, pobres, por promessas de melhores empregos, melhores salários, enfim, uma vida melhor. Mas já na barca, ao fazerem a travessia, são jogadas à realidade. São espancadas, estupradas, avisadas que devem dinheiro ao aliciador (comida, aluguel, passaportes, tudo custa), e então obrigadas a fazer uma média de doze programas diários, sofrendo os piores tipos de ataques. E se reclamarem, ou sofrerem críticas de seus clientes, podem ainda sofrer mais espancamentos e ataques sexuais.

Lydia e sua amiga, Alena, tem um segredo, que está guardado no Box 21. Será que elas conseguirão trazer a verdade à tona?

O livro foi escrito a quatro mãos por Anders Roslund e Borge Hellstrom. Roslund é um famoso jornalista, Hellstrom é um ex presidiário que atualmente trabalha com reabilitação de jovens delinqüentes e drogados. Escreveram também A Besta (não li), com como protagonistas Grens e Sundkvist que antecede a história de Box 21 e também Redenção (também não li), com os mesmos protagonistas.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Como me tornei estúpido - Martin Page


Como hoje eu estou meio de mau humor, já que estou aqui trabalhando na segunda-feira, véspera de feriado, vim com uma sugestão light, beeeeem engraçadinha e beeeem pequenininha. Não sei nem se o livro se enquadra como um livro de bolso, ou se seria um conto, enfim... é pequenininho, e você lê num pulo.

Antoine é o personagem principal, e é também um anti-herói. Ele se convenceu que inteligência nada mais é que um empecilho para a felicidade. Segundo ele a inteligência e a crítica só o fazem sofrer e se sentir inadequado na sociedade atual. Após chegar a tal conclusão, decide que deve se massificar ao máximo, e buscar meios de agir como uma pessoa imbecil. Daí em diante, tenta se tornar alcoólatra, tenta se matar, e pensa até em fazer uma lobotomia. Nada disso, obviamente, dá certo, e é narrado de um jeito muito engraçado. Antoine então, passa a trabalhar numa corretora, usar um antidepressivo que entorpece sua consciência e por causa de um evento bizarro no trabalho, torna-se rico, bem sucedido e freqüentador da alta roda. Então, ser estúpido parece estar dando certo! O plano só não é perfeito nos intervalos de funcionamento do antidepressivo, e também por causa de seus antigos amigos, que não estão gostando nada do novo Antoine, e decidem fazê-lo passar por uma terapia de choque não muito convencional...

Livro bacaninha, de um autor novo, como já disse, bem fininho, de ler numa tacada só. O humor é ácido, fazendo crítica a nossa sociedade atual, ao sentimento de inadequação, à constante e crescente massificação do raciocínio. Recomendo, leiturinha fácil para o feriado que vem por aí (sim, que vem, já que, como disse, estou aqui trabalhando, não emendei feriado coisa nenhuma! Haha).

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Na Natureza Selvagem - Jon Krakauer


Sim, eu demorei bastante para escrever de novo, mas o trabalho anda tão maluco aqui, tanta coisa, que mal sobra tempo para respirar. Mas ao invés de me justificar, vamos ao que interessa:

Na Natureza Selvagem, escrito por Jon Krakauer, conta a história de Chris McCandless, um jovem de família rica dos EUA, que, pouco após sua formatura, desaparece. Mas não, ele não foi seqüestrado ou algo parecido. Ele largou tudo o que tinha, inclusive seu dinheiro, e resolveu fugir do sistema e das convenções. Depois de anos, seu corpo, já em decomposição, foi encontrado no Alasca. Causa da morte: inanição. O autor, com base em pesquisas, depoimentos e relatos, traça os dias de Chris, desde sua ruptura com o mundo, até sua morte, buscando a trajetória feita, as pessoas que encontrou, o que pensava quando tentou fugir dos padrões da sociedade.

O livro é uma espécie de documentário, um relato sobre esse jovem, que realmente existiu. Sim, a história de Chris é verídica. Um jovem que tinha tudo, mas resolveu não ter nada. Indignado com a percepção de que sua vida toda tinha sido programada, tendo uma relação delicada com seus pais, e um amor muito grande a sua irmã, e tendo sempre se mostrado um amante da natureza e de esportes, como a corrida, quando se viu finalmente confrontado, tendo que assumir a vida que as pessoas entendem que os adultos devem ter, resolveu viver da forma com que ele achava que deveria. Num primeiro momento, em sua jornada, leva seu carro antigo, algum dinheiro e documentos. Depois, decide viver em total harmonia com a natureza, trazendo consigo apenas o que poderia carregar. Abandona carro, o pouco dinheiro que tinha, e também seus documentos. Passa a se auto denominar Alexander Supertramp. Para se deslocar pede carona, se precisa de algo que custa dinheiro, faz algum bico, fica um tempo em algum lugar até que obtenha o pretendido para, em seguida, continuar seu caminho incerto.

O autor, jornalista, reconstrói esses acontecimentos, e nos diz um pouco da personalidade de Chris/Alexander. Para muitos, um louco irresponsável, para outros, principalmente para as pessoas que conviveram com ele, um sonhador, uma pessoa boa, extremamente cativante.

Jon Krakauer vai tecendo sua história, fazendo comparações com outros personagens de trajetória semelhante, contando também um pouco sobre a família que ficou para trás, as pessoas que Chris cativou em seu percurso, e tentando resolver algumas questões: Por que escolher o Alasca? O que aconteceu com aquele jovem, que até então parecia bem preparado e inteligente o suficiente para prever alguns acontecimentos e evitar erros, a acabar morrendo de inanição, sozinho, num ônibus abandonado no meio do nada?

O leitor, por sua vez, pode tanto se identificar com aqueles de perfil mais prudente, que além de questionar as escolhas de Chris, ingênuas até, ou se identificar com ele, o que, de certa forma, é o meu caso. Quem teria coragem de abandonar tudo assim, ABSOLUTAMENTE TUDO, e sair por aí, vivendo do que a natureza pode te oferecer, pois não acha que o mundo atual não é uma escolha? Ao mesmo tempo, a trajetória de Chris revolta alguns, pois, além de ter causado a morte dele próprio, ao se tornar uma espécie de lenda, muitas pessoas, até hoje, tentam refazer o caminho que ele percorreu, também tentando enfrentar o frio da Alasca totalmente sozinho, sem muitos recursos. Também dá para entender a irritação das autoridades policiais de lá, que tem seu trabalho dobrado ao resgatar imitadores de Chris McCandless.

O livro teve uma adaptação cinematográfica, com o mesmo nome (em inglês, Into the Wild). O diretor é ninguém menos que Sean Penn (que também escreveu o roteiro). O ator principal é Emile Hirsch, que está muito bem no papel. O filme também conta com nomes como William Hurt, Márcia Gay Harden, Vince Caughn e Kristen Stewart (até então uma semi-desconhecida). O filme é lindo, Sean Penn e Emile Hirsch arrasaram mesmo!

E para finalizar, mesmo que não tenha vontade de ler o livro, ou de ver o filme, ESCUTEM a trilha sonora, que é deliciosa, feita por Eddie Vedder (sim, para os incautos, vocalista do Pearl Jam). Vale muito a pena, é linda, dá vontade de colocar no repeat para sempre.




“(…) SEM JAMAIS TER DE VOLTAR A SER ENVENENADO PELA CIVILIZAÇÃO, FOGE E CAMINHA SOZINHO PELA TERRA PARA SE PERDER NA FLORESTA”. (foto e frase reais de Chris McCandless)

sábado, 21 de abril de 2012

Criança 44 – Tom Robb Smith


Na União Soviética do ano de 1953, o governo insiste em dizer que não há crimes no país. E, para quem discorda, resta a opressão. Mas o que ocorre quando uma família diz que seu filho, encontrado morto nos trilhos de uma ferrovia foi assassinado? E quando um agente da MGB desacata as ordens de ignorar o caso, correndo o risco de ser declarado inimigo do Estado e passa a buscar a verdade?

Gente, só o tema já faz com que eu diga que você tem que ler o livro. A ambientação da União Soviética é interessante (é impressão minha ou há poucos livros bacanas disponíveis que exploram essa temática?), pincelando temas sobre a relação com a polícia, com o governo opressor, sobre a época de Stalin, tortura, polícia secreta, e outros dados como o tratamento dado à homossexualidade na URSS, orfanatos, tratamentos psiquiátricos, educação, etc.

O livro é tenso, e ambientado em paisagem e cultura totalmente diferentes do que estamos habituados. Há neve por todo o lado, um inverno mais rigoroso do que podemos imaginar, as diferenças culturais e de época, pois estamos falando de uma nação comunista, vivendo em opressão.

Além dessa ambientação interessante da época (eu gosto de história, mas confesso que era mais aficionada pela história antiga, mitologia, etc., não por essa área mais ‘recente’ dos estudos), vamos ao que interessa do livro: A narrativa é ótima. Praticamente engoli o livro. Ele é de uma agonia tremenda. E quando vão descobrindo mais e mais crianças assassinadas (não é spoiler, oras, você achava que ‘criança 44’ significava o que?), nossa, vai te batendo uma tristeza... caramba, o governo simplesmente cala sobre isso e deixa tudo lá, como se fosse tudo ótimo, e as famílias que se virem, e engulam a dor, inventem uma justificativa para o ocorrido. E embora não haja mocinhos e bandidos clássicos (o super mau e o super bonzinho), afinal, lembrem-se, o personagem principal, Liev Demidov é agente do governo, não tem como não torcer para ele, para que ele resolva a bagunça toda, embora ele se encrenque muito por tentar.

O fim... achei bem bacana, e embora eu seja a mestre em ficar tentando adivinhar o final, devo dizer que fiquei passada com a explicação. Sério, me deu certo choque. Não passei nem perto de descobrir o assassino ou os motivos da barbárie.

Dizem por aí que o livro teve os direitos adquiridos pelo Ridley Scott, e que estão fazendo testes com atores. Bem, espero que sim, embora sempre me bata aquele medinho de adaptações de livros que gosto muito (e as fãs de Robert Pattinson dizem que ele estaria no filme... :/).

Um dado histórico interessante é que esse livro é parcialmente baseado na história verídica do serial killer Andrei Chikatilo, o Estripador de Rostov, que matou 52 pessoas na URSS. Mas sério, por favor, se forem pesquisar sobre o assunto, façam isso DEPOIS de ler o livro, porque estraga um pouco a resolução da história, hein? SÉRIO!